Blog criado em 2010 pelo historiador Wanderlei Menezes para a divulgação de notícias e informações acerca da cultura de Itabaiana/SE.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Breve histórico do ABADÁ-CAPOEIRA
Abadá
é um dos grupos culturais de Itabaiana que pratica a capoeira. O nome do grupo
remete a sigla designativa para Associação Brasileira de Apoio e
Desenvolvimento da Arte Capoeira. O presidente-fundador é José Tadeu de Cardoso,
conhecido por Mestre Camisa. O grupo existe em 65 países.
Capoeira
Abadá existe há 22 anos e tem sua matriz brasileira na cidade do Rio de
Janeiro. Há filiais em todos os estados brasileiros. O Abadá capoeira está
atuando no estado de Sergipe desde 1997.
Em
Itabaiana, o grupo existe desde 2004, tendo como professor Josimar Santos
Santana (graduado Bisão). Esse professor desenvolve projetos sociais em
escolas, academias e comunidades carentes com o intuito de formar futuros atletas
e profissionais na área da capoeira, pautados na cidadania com engajamento
social.
O
Abadá-Capoeira local conta com aproximadamente 80 componentes sobre a
coordenação do graduado Bisão.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Dados sobre grupos culturais de Itabaiana
- Reisado do Bom Jardim
Endereço:
povoado Bom Jardim
Responsável:
Maria Rosa de Santana
Contato:
9979-4218
Data
de Fundação: 1991
Número de
componentes: 26
- Quadrilha Junina Balança Mais Não Cai
Endereço:
Rua Coronel Sebrão, nº 424
Responsável:
Salomão dos Santos
Contato:
9968-4785 ou 9974-6312
Data
de Fundação: 15.06.1982
Número
de componentes: 70
- Chegança Santa Cruz
Endereço:
Travessa Francolino Alves dos Santos, nº 298
Responsável:
José Serafim de Menezes
Contato:
3431-4658
Data
de Fundação: 10.04.1947
Número
de componentes: 20
- Grupo Capoeira Molas – Mestre Lucas
Endereço:
Rua Maria Luiza Mendonça, nº 08 – Itabaiana-SE
Responsável:
Lindomarcos Veloso Duarte
Contato:
9997-2320
Data
de Fundação: 1997
Número
de componentes: 35
- Banda de Pífano “São José”
Endereço:
Felisbelo Machado Menezes, nº 2375
Responsável:
Valter Messias dos Santos
Contato:
9986-7086
Data
de Fundação: 14.04.1995
Número
de componentes: 06
- Teatro da Encenação da Paixão de Cristo
Endereço:
Povoado Mangabeira
Responsável:
Vera
Contato:
9955-0400
Data
de Fundação: 07.04.2000
Número
de componentes: 70
- Grupo de Dança Art Livre
Endereço:
Rua Quintino Bocaiuva, 654 (Col. Estadual Murilo Braga)
Responsável:
Dulce Maria
Contato:
9969-9523
Data
de Fundação: 17.12.1992
Número
de componentes: 10
- Festejo do Mastro de São João
Endereço:
Rua Coronel Sebrão, 20, Ap.02
Responsáveis:
Jorge, Luci Meire e Luis Bispo
Contato:
3431- 3941
Data
de Fundação: 1909
Número
de componentes: Indeterminado
LENDAS E IMAGINÁRIO DA SERRA DE ITABAIANA
A região de Itabaiana tornou-se uma espécie de eldorado. A história
das minas de prata da Serra de Itabaiana nunca descobertas sempre
aguçaram o imaginário dos que passaram por Itabaiana.
A popularização das minas de prata deve se muito ao livro “Meu
Sergipe: Ensino de História e Chorografia de Sergipe” de Elias
Montalvão (1928), obra adotada pelas escolas públicas do estado,
durante as primeiras décadas do século XX. Neste livro há um
capítulo intitulado “O Thesairo”
“... No Sertão do Rio Real, morava Belchior Dias
Moreya.
Este homem fez uma excursão a várias paragens e
descobriu ouro, prata, pedras preciosas e salitre.
Em seguida, espalhou a notícia de haver encontrado as
minas e pretendia ser agraciado por el-Rei, com o título de Márquez
das Minas.
(...) Governando Pernambuco estava D. Luiz de Souza que,
tendo sciencia do grande descobrimento de Belchior, a este escreveu
promettendo que ia se empenhar, a fimi de conseguir de el-Rei a mercê
desejada.
D. Luiz de Souza escreveu depois a Belchior, dizendo já
haver obtido a mesma e que estava de posse do título, para
entregar-lhe quando elle mostrasse o local das minas.
(...) Em companhia de D. Luiz de Souza, foi também seu
primo D. Francisco de Souza, governador da Bahia.
Ambos foram guiados e acompanhados por Belchior, ao
qual, em caminho, um pagem particular de um dos governadores que,
conversando estes sobre a mercê almejada, dissera um delles ao
outro:
Mostre elle as minas, que o caboclo para quer mercê?
Chegaram todos à Serra de Itabaiana.
Ahi, disse Belchior que somente mostrava a logar das
minas depois que recebesse o título“. (MONTALVÃO: 1928, p. 21).
A descrição feita por Montalvão foi baseada em documentos, mais
precisamente na carta do Coronel Pedro Barbosa Leal (1725). De
maneira simples as façanhas de Belchior Dias Moréia são narradas.
Em nível nacional, o romance “As Minas de Prata” de José de
Alencar cita a da cobiça e o sonho das minas e muito tempo antes de
Capistrano de Abreu, já se referiu a Belchior Dias Moréia, pai de
Robério Dias, que teve seu nome relacionado aos feitos do pai:
Estas famosas Minas de Prata do Brasil, que tanto mal
têm feito, excitando a cobiça de uns e causando a desgraça de
outros, fazendo que reis esqueçam seus povos e sacerdotes, sua
divina missão, foram achadas em 1587 por vosso avô, o Moribeca, de
uma maneira que ainda hoje se ignora.
Ah! Não foi meu pai! (ALENCAR, 1959, p. 73)
O legado em longo prazo de tantas investidas produziu lendas, dentre
as quais uma é de fundamental importância e é bastante
representativa do poder dessas expedições no imaginário popular. É
o caso de lenda do Carneiro de ouro. Bastante antiga, ela foi
transmitida de geração a geração. Nesse sentido, o exercício do
devaneio em torno de uma lenda que funciona como um elo com o
natural, leva ao homem o dominar e ser dominado pela natureza, fonte
de motivação e imaginário (LOUREIRO, 2001).
A transmissão das lendas, conforme LA PLANTINE (1999), são formas
de tradição oral. No caso da lenda do Carneiro de Ouro mostra-se
evidentemente ser um produto de uma sociedade que viveu o
aventureismo, ocasionado pela cabeça.
Uma das descrições sobre a misteriosa Serra de Itabaiana e os
ocultos tesouros nos oferece Clodomir Silva:
“há de ouvir ainda hoje, em pleno século das
maravilhas, as lendas do carneiro de ouro e da moça encantada que os
atuais habitantes referem pelo as haverem ouvido de seus maiores, que
lhes falavam do tempo em que a serra, estourando de 7 em 7 anos,
fazia bater às portas do casario da cidade serrana, fragmentos de
ouro volumosos e grandes” (SILVA, 1926, pág. 21).
Já em Olímpio Rabelo (1926), a lenda é narrada um pouco diferente.
Em uma dada hora do dia, o sol batia na frente da serra e, em
seguida, aparecia se movendo uma figura amarelada, parecendo um
carneiro de ouro. Segundo esse autor essa “figura” saia do limo
das escarpas e o fato de haver muito limo não permitiu mais se ver o
fenômeno.
A Igreja Velha de Itabaiana e tradições culturais
Qual o
morador de Itabaiana que nunca ouviu falar da Igreja Velha? Uns dirão
que é um povoado; outros, por sua vez, mencionarão que ai há uma
igreja em ruínas num pasto. Porém, poucos sabem que aqueles
escombros presenciaram importantes passagens de nossa História e que
têm um valor simbólico incomensurável.
Nos
primeiros anos do século XVII começa a haver a presença mais
numerosa dos agentes metropolitanos da Coroa Portuguesa nas regiões
próximas à Serra de Itabaiana. Esses homens vieram ocupar as terras
outrora pertencentes aos nativos. Ao que tudo indica, eram pequenos
lavradores, aventureiros em busca da fortuna fácil com as propaladas
riquezas minerais da Serra de Itabaiana, criadores de gado, negros
fugidos e etc. Foram eles os construtores da Igreja Velha. Não se
sabe ao certo a data em que foi construído o primeiro templo cristão
do agreste e sertão sergipano, mas certamente foi anterior a 1642,
pois, no mapa do holandês Barleu, já aparecia a indicação, no
mesmo local onde atualmente se situa a Igreja Velha, de uma igreja
que tinha por orago Santo Antonio. Uma coisa é certa: A igreja
Velha é a mais antiga construção legada por nossos antepassados
ainda existente.
Os que
visitam as ruínas da primeira igreja de Itabaiana percebem que o
pequeno templo foi construído de modo bastante simples. As paredes
foram feitas com pedras talhadas e argila como “cimento”. O
telhado, ao que parece, deveria ser de palha e madeira. A Igreja foi
erguida num local estratégico com privilegiada visão, próximo a
fontes permanentes de água (nas proximidades dos rios Jacarecica e
Lomba), e numa área central e elevada. O único objeto bem
preservado do antigo templo de Santo Antonio é a imagem de Nosso
Senhor da Coluna Verde, que se encontra salvaguardada num importante
museu de nosso Estado.
O
destino da Igreja Velha mudaria com a criação, em 1665, da
Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório de Itabaiana.
Como a rústica igreja era pertencente a particulares, a Irmandade
resolveu comprar o terreno Caatinga de Aires da Rocha, dez
anos depois de sua fundação, ao pároco da cidade de São
Cristovão, Sebastião Pedroso de Gois, para construir um templo
sobre seu comando.
Em 1675,
existiam duas igrejas de Santo Antonio em Itabaiana: a velha e a nova
– esta última se tornará a Matriz de Santo Antonio e Almas de
Itabaiana. No ano anteriormente citado, a recém criada igreja ganhou
a condição de freguesia. Essa trama arquitetada pela Irmandade foi
o golpe crucial para o crescente esvaziamento de importância do
primeiro templo cristão das plagas serranas. Em 1757, a Igreja Velha
já estava em ruínas. Como o tempo implacavelmente deforma as
formas, o primitivo templo foi paulatinamente desabando. A Igreja
Velha vive sua agonia silenciosa há quase três séculos e meio. O
velho templo resistiu a tantas adversidades e se mantém de pé,
esperando ser tombado para não tombar. A tradição popular explica
esse fenômeno histórico de perca de importância da Igreja Velha
pela Igreja de Santo Antonio e Almas pela lenda de Santo Antonio
fujão.
Atualmente,
há em Itabaiana várias igrejas cristãs dos mais variados cultos,
quase uma por bairro ou povoado, mas a Igreja Velha é especial por
um simples motivo: foi com ela que tudo começou.
Cantos da Chegança
De acordo com Beatriz Góis Dantas, a análise da música da Chegança
apresenta problemas especiais ao pesquisador. A fonte ibérica é
facilmente percebida nas letras e na estrutura melódico-rítmica de
várias canções. Difícil, porém, é determinar quais destas são
realmente derivadas de canções ibéricas. A autora apresenta vários
tipos de canções que podem ser indicados: canções baseadas em ou
influenciadas pelo cantochão; canções de caráter melódico-rítmico
europeu; canções folclóricas de origem definitivamente brasileira;
canções de fonte erudita ou canções compostas.1
Dentre estes, podemos afirmar que as melodias cantadas pelo grupo da
Chegança Santa Cruz de Itabaiana-SE, encaixa-se no tipo de “canções
folclóricas de origem definitivamente brasileiras” pois,
percebemos em Zé de Binel uma facilidade em criar, recriar versos e
adaptá-los para as encenações. Tal afirmativa é comprovada quando
o mesmo nos relata que observou um erro na melodia apresentada pelo
grupo Marujada da cidade de Laranjeiras-SE, no qual o comandante
tirava o seguinte verso:
“Olho para o Leste e vejo uma nuvem regassar,
acuda meu comandante que a Nau vai pirigar”.
Para justificar o erro da expressão em destaque no verso, seu Zé
nos explica que é impossível uma “nuvem regassar”, e que
o correto é:
“Olho para o Leste e vejo uma nuvem se formar,
acuda meu comandante que a Nau vai pirigar”.2
Essa correção foi observada e feita em vários outros versos
durante uma competição ocorrida no Espaço Cultural Gonzagão –
Aracaju-SE, que contou com a participação de vários outros grupos
folclóricos, na qual a Chegança Santa Cruz ganhou premiação
máxima. Ao criar os cantos, ele encaixa novas rimas nas melodias com
pequenas modificações.3
Assim, nascida de forma simples, humilde, sem nenhum aparato técnico
a música folclórica pertence à comunidade que a faz sobreviver. E
a sobrevivência se faz pela transmissão oral e práticas sem
conceitos ou teorias. Ao se transmitir, ocorrem modificações, fonte
de inovações e de contribuição do povo. Às vezes essa chamada
contribuição coletiva parte de um indivíduo, geralmente um
condutor autêntico do folclore, que é aceito pelo grupo e a partir
daí se incorpora à contribuição musical já existente, perdendo
no futuro o caráter de contribuição individual, passando para
coletiva.4
A seguir apresentamos algumas canções da Chegança Santa Cruz de
Itabaiana-SE, colhidas de Zé de Binel, destacando partes da
encenação e o ritmo em que cada uma é cantada:
Título
da Chegança – marcha batida
Quando
bater a meia-noite
Vou
dar ordem aos marinheiros
Para
atracar o vapor.
Mas
quando Santa Cruz chegou
Aqui
no porto não atracou
Eu vou
falar com o almirante 2x
Que é
o nosso comandante 2x
Para
atracar o vapor. 2x
Ai,
sim senhor, meu comandante
Agora
venho lhe avisar
Santa
Cruz chegou no porto 2x
Mas a
polícia marítima não deixou atracar. 2x
O
embarque - Marcha ligeira
Vamos
depressa, vamos embarcar 2x
Que o
navio está no porto
não
podemos demorar 2x
Meu
comandante devo autorizar? 2x
A saída
do navio pois queremos viajar 2x
Embarca,
embarca, embarca logo 2x
Que a
hora é essa 2x
Tocou o
apito, 2x
Já tocou
o apito.
Embarca
depressa 2x
Meu
comandante mandou embarcar
Puxa o
ferro marinheiro 2x
Veja logo
se arranca 2x
Com 10
metros de fundura 2x
Aí,
pouca força não levanta 2x
Eu não
quero saber disso 2x
Que eu
também disse puxar 2x
Só
desejo vê agora 2x
Esse
navio viajar que governa o leme
Sou um
piloto
Vê se
não treme lá em alto mar
Passa
essa noite, o dia amanhece
Tudo
obedece ao meu navegar.
Marcha
de despedida – embarque –
marcha ligeira
Tamos
cientes que vamos para a guerra 2x
Deixando
a nossa querida terra 2x
Meu
comandante nós vamos para a guerra
Deixando
a nossa querida terra.
Tamos
cientes que vamos para a guerra 2x
Deixando
a nossa querida terra.
Capitão-piloto
nós vamos para a guerra. 2x
Deixando
a nossa querida terra.
Piloto bêbado – marcha pulada
Capitão,
piloto para onde estar olhando? 2x
Por
causa de sua cachaça todos nós estamos chorando 2x
Homem
prudente o que é que você quer? 2x
Deixe
eu tomar minhas cachaças até quando Deus quiser 2x
Capitão-piloto
quando deixa de beber?
Quando
morrer.
Por
causa de sua cachaça todos nós vamos sofrer.
Cozinheiro – marcha batida
Todo
mundo tem sua hora
Na vida para
descansar
O
pobre do cozinheiro, coitado
Disso
não poder gozar.
O
piloto cheira a cravo
Capitão-tenente
a canela
O
pobre do cozinheiro, só cheira
A
lodo e carvão de panela. 2x
No
trabalho da cozinha
Eu
tenho toda a competência
Sempre
dou a bóia pronta, na hora
O
patrão pode dar providência.
Todo
mundo tem sua hora
Na vida para
descansar
O
pobre do cozinheiro, coitado
Disso
não poder gozar.
A nau-perdida – marcha lenta
(reclamação
do patrão com o piloto)
Falei-me
nossa Senhora ou Virgem da Conceição 2x
O
piloto embriagado
Perde
essa aí embarcação
Patrão
– Prometa vós virgem pura
Se
esse navio salvar
De
festejar vosso dia
Quando
em terra chegar.
Oração do desespero – verso
Lá no porto se
virar
Pensava
vim uma marcha espantosa
Que
causou admiração
Logo
no primeiro banco
Esse
navio bateu
Aí
eu me ajoelhei
E
fiz a minha oração
Valei-me
Deus de Israel
Ele
queria me ajudar
E
logo-logo de repente
Vamos
entrar na barca
Viajei
setenta e cinco dias meu comandante
Somente
a imaginar
Mas
vim satisfeitamente
De
ver o piloto
Sempre
na guia de leva-mar.
Milagre da Virgem – marcha batida
Milagre
da Virgem Maria 2x
Tá vendo a grande
lida 2x
Era
chuva, era nau, era vento 2x
Nas
ondas do mar
Caminhos
da vida.2x
Piloto bêbado – marcha batida
Oi,
vamos todos com alegria
Lá
pra barquinha de Noé
Agradecer
a salvação
A
Jesus e Maria José
Vamos
todo com alegria
Pois
lá na barquinha de Noé
Tem
dois anjos querubins
Foi
que me ensinou a cantar
Aí,
viva ao senhor do Bomfim
Oi,
lá barquinha de Noé
Vamos
todos sem demora
Agradecer
a Jesus e Nossa Senhora.
Na porta da Igreja - Marcha batida
Louvai
Virgem do Rosário,
Senhora
dos Navegantes
Acuda
que a nós marujos
Dos
perigos do levante
Ajuda
que a nós marujos 2x
Sempre
seja triunfante 2x
Louvemos,
louvemos, louvemos
A
quem viemos louvar
É a
Virgem do Rosário 2x
Ela
nos quer ajudar. 2x
Parte do piloto
Marinheiros?
Senhor!
Viva
a mãe Deus do Rosário
Viva!
Um
dia eu vindo viajando
Nesse
camarote de proa
Essa
nau vinha marchando
Do
sul ao norte
Ouvir
uma voz dizer
Acuda
meu contra-mestre
Acordei
muito vexado
pensei
que fosse turbuzana
E
fui saber o que era,
Era
a voz de dois marinheiros
Vinham
dormindo e acordaram
Atordoados,
nisto quis saber o que era
Eu
fui a proa, mandei ferrar todas as velas,
Barra
e venteira, gulacho alto, gulacho baixo
O
homem que não tem ciência meu comandante,
Não
pode ser imperial
Não
sobe, não desce e nem alargar
Autorização para o embarque
Marcha ligeira
Hora
adeus pela Lisboa
Eu
já vou me retirando
Santa
Cruz estar no porto e atalaia está chamando 2x
Quando
vai chegando a noite
que
essa nossa nau naufragou
Chora
as mães pelos seus filhos, ai meu Deus que grande dor
Hora
adeus pela Lisboa
Eu
já vou me retirando
Santa Cruz está no
porto e atalaia está chamando 2x
Ninguém viu do que
eu já vi de ontem para anteontem
Duas
beija-flores de ouro
lá
no peito do comandante 2x
Hora
adeus pela Lisboa
Eu já vou me
retirando
Santa
Cruz está no porto e atalaia está chamando 2x
Chora
as mães pelos seus filhos,
A
mulher por seu marido,
irmãos
pelos irmãos e chora as moças por seus queridos.
Despedida - Marcha ligeira
Adeus
meu povo todo
Todos
passem muito bem
Que
a mourama vai embora 2x
Porque
é cristão também 2x
Todos
passem vida boa
Que
a mourama vai embora 2x
Pra
capital de Lisboa 2x
Todos
passem com alegria
Que
a mourama vai embora 2x
Pra
capital da Turquia. 2x
Meu
general eu bem vos dizia
Que preparasse a artilharia
Já preparei toda a artilharia
Meu comandante marche como um guia
Capitão-piloto eu marcho como um guia
Capitão-piloto eu bem vos dizia
Que preparaste toda artilharia
Já preparei toda artilharia
Meu
general marche como um guia.5
Rito
do batizado - Marcha ligeira
Eu te batizo mouro,
pela
lei da Santa Cruz
Depois
de batizado mouro pertence a Jesus 2x
Quem
era como nós era
Mouro
de lá da Turquia
Já
hoje somos cristãos acabou-se a fidalguia.
Notas do artigo
1
DANTAS, Beatriz Góis. Cadernos de Foclore nº 14: Chegança.
Rio de Janeiro: s/ed., 1985. p. 07-08
2 Depoimento de José Serafim de Menezes, concedido a Wanderlei Menezes e Bruno Pereira Itabaiana, 03 de junho
de 2010.
3
Idem.
4
ALENCAR, Aglaé D’Ávila Fontes de. Folclore e Educação Musical.
In: Encontro Cultural de Laranjeiras 20 anos. Governo do
Estado de Sergipe: Secretaria Especial da Cultura, 1994. p. 134.
5 Depoimento de José Serafim de Menezes, concedido a Wanderlei Menezes e Bruno Pereira Itabaiana, 03 de agosto
de 2010.
As vestimentas da Chegança Santa Cruz
Os
trajes utilizados pelos participantes da Chegança Santa Cruz de
Itabaiana-SE, são confeccionados pela esposa de José Serafim de
Menezes, Maria José de Jesus, com recursos próprios e seguem à
imitação da Marinha, vestes brancas com detalhes em azul e dourado.
O rei mouro usa manto vermelho, coroa e espada. Seus embaixadores
trajam roupas brancas, trazendo uma faixa cruzada em seu peito com a
indicação de seu posto.
Quanto à simbologia das cores das vestimentas, Beatriz Góis Dantas
esclarece: “... onde se defrontam mouros e cristãos, não tem aqui
definida função identificadora dos personagens em oposição”.
Sendo assim, a variação de cores não descaracteriza o contexto do
folguedo porque não há um padrão de cores a ser seguido.1
Maria José de Jesus nos conta que para confeccionar os trajes é
comprada uma peça que, em geral custa caro, ou a mesma visualiza em
lojas ou revistas e faz a reprodução de várias peças. Um exemplo
disso foi a compra de um chapéu de marinheiro adquirido por Zé de
Binel, o qual foi desmanchado para fazer o molde e assim poder
confeccionar outras peças. Os trajes são guardados sob
responsabilidade do líder do folguedo e utilizados especialmente em
dias festivos. São adquiridos com muita dificuldade, pois os
recursos financeiros do grupo são poucos, no entanto, percebe-se o
zelo e a dedicação de Zé de Binel e sua esposa em manter a
caracterização da Chegança.2
Além dos trajes, as duas “princesas” do grupo levam dois
estandartes estampando símbolos característicos da mourama e da
cristandade.
Notas do artigo
1
DANTAS, Beatriz Góis. Cadernos de Foclore nº 14: Chegança.
Rio de Janeiro: s/ed., 1985. p.07
2
Depoimento de Maria José de Jesus, concedido a Maria Antônia de
Carvalho Barros e Tatiane Santana Santos. Itabaiana, 03 de junho de
2007. (Acervo das Autoras)
Chegança, folguedos e historiografia folclórica sergipana
Neste texto, apresentaremos uma visão geral dos folguedos no Estado de
Sergipe, especificamente a Chegança, sobretudo enfocando a Chegança
Santa Cruz de Itabaiana-SE, numa perspectiva histórica de
preservação e manutenção desta como símbolo da identidade local.
Sabemos da carência de estudos que nos remeta a conhecer nossas
tradições que vêm sendo transmitidas através de sucessivas
gerações, sempre se renovando e se recriando, num processo vivo e
dinâmico, propiciando à nação a possibilidade de construir sua
própria identidade
Sem uma tradição, uma coletividade pode viver ordenadamente, mas
não tem consciência do seu estilo de vida. E ter consciência é
poder ser socializado, isto é, é se situar diante de uma lógica de
inclusões necessárias e exclusões fundamentais, num exaustivo e
muitas vezes dramático diálogo entre o que nós somos (ou
queremos ser) e aquilo que os outros são e, logicamente, nós não
devemos ser.1
No ano de 1878, os ingleses, fundaram em Londres a Sociedade de
Folclore, consideravam como objeto dos seus estudos as narrativas
tradicionais (mitos, lendas, cantos populares), os costumes
tradicionais (celebrações cerimoniais populares), sistemas
populares de crenças e supertições (ligadas à vida e ao
trabalho), sistemas e formas populares de linguagem (ditos e frases
feitas). No Brasil, a maneira de se compreender o folclore é um
tanto polêmico, por um lado, estende o folclore à cultura
primitiva, aos mitos, lendas e cantos; por outro lado, como uma
disciplina diferenciada de uma ciência, a Antropologia e não como
ciência autônoma.2
Em Sergipe, o interesse maior em conhecer a nossa história, a
geografia, a literatura e a cultura popular começou no início do
século XX. O Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe
estimulava estes estudos e em 1942, propôs a realização do I
Congresso de História e Geografia de Sergipe. Este movimento
continuou nos anos 1950 e até aumentou com a criação do Movimento
Cultural de Sergipe (que teve como criador José Augusto Garcez) que
publicou livros de autores sergipanos e descobriu novos escritores.
Ao mesmo tempo, a Sociedade de Cultura Artística de Sergipe trazia
para o teatro Ateneu recentemente inaugurado, artistas famosos, do
Brasil e do estrangeiro. Mas deste movimento cultural, que acontecia
principalmente em Aracaju, pouca gente participava, pois a maior
parte da população continuava fora da escola e o analfabetismo
entre os adultos era enorme. Esta década foi muito importante na
história da luta pela educação. 3
A historiografia sergipana apresenta uma escassez de registros e
pesquisas sobre as tradições populares, apesar de “em todas as
manifestações da vida, já o dissemos, tem Sergipe lugar de
destaque, qualquer que seja o empreendimento humano que se lhe
aponte”. No entanto, o que se percebe é a desvalorização e o
desconhecimento das manifestações artístico-populares. 4
Em geral, o que existe como fonte de pesquisa são coletâneas que
tratam resumidamente os aspectos dos diversos folguedos do nosso
Estado. Um exemplo é a “Revista Sergipana de Folclore”,
organizada pela Comissão Sergipana de Folclore, que teve seu
primeiro número lançado paralelo ao I Encontro Cultural de
Laranjeiras, em agosto de 1976. No livro são tratados rituais
folclóricos da festa de São Benedito, a Taieira, a Chegança, o
Cacumbi e a Dança de São Gonçalo, porém de modo sintetizado.5
O I Encontro Cultural de Laranjeiras reuniu representantes de
Pernambuco, Bahia, Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo, e
naturalmente grande participação de Sergipe. O Encontro envolveu
diversos municípios, registrando-se a presença de numerosos grupos
folclóricos, nos desfiles; Chegança e Zabumba, de Lagarto, São
Gonçalo, de Pinhão; Guerreiro, de Aracaju; São Gonçalo, Taieira e
Cacumbi, de Laranjeiras; Chegança, de Itabaiana, Reisado, de Siriri;
Candomblé, de Aracaju; Guerreiro e Samba de Coco, de Nossa Senhora
do Socorro; Guerreiro, de Riachuelo; Batalhão e Samba de roda, de
Carmópolis; Cacumbi e Maracatu, de Japaratuba. E também violeiros,
emboladores de coco e poetas populares.6
O projeto elaborado para o I Encontro indicava: estudar as
manifestações da cultura popular no Estado; promover as
apresentações de grupos; proteger a organização de grupos em
função dos Centros regionais de folclore; discutir, em alto nível,
as questões fundamentais da cultura popular; fomentar o intercâmbio
intermunicipal de grupos; valorizar a criação popular, em todos os
níveis. Desde 1976, estudiosos e pesquisadores dos diversos pontos
do Brasil reúnem-se para estudar, interpretar, contribuir para a
valorização de nossa cultura popular. O que nos leva a perceber que
tais objetivos permanecem atuais, porque são princípios assentados
na realidade social, na dinâmica cultural, na evolução da própria
sociedade. O olhar tem as suas maneiras de ver influenciadas e até
determinadas pela dinâmica social. Tais objetivos firmaram-se pelo
seu acerto, pela identificação com as peculiaridades culturais do
país e continua a constituir o caminho por onde passam as nossas
preocupações, o nosso interesse, o nosso reconhecimento dos valores
de nossa cultura popular.7
Há uma produção de Beatriz Góis Dantas intitulada “Cadernos de
Folclore” que trata das principais manifestações culturais de
Sergipe, abordando cada uma individualmente. De modo específico, no
“Cadernos de Folclore nº 14”, a autora apresenta uma visão
geral da Chegança, a partir dos dados colhidos em duas cidades
sergipanas: Lagarto e Laranjeiras. Nesta obra são abordados as
características do folguedo enfatizando suas partes constitutivas,
personagens, trajes, instrumentos musicais, coreografia, etc. Segundo
a autora, a Chegança, a exemplo de outros folguedos, transmite não
só um modo de crenças, mas também uma mensagem de legitimação
social.8
Percebe-se que essa falta de registro constitui-se como uma lacuna em
nossa historiografia e apresenta-se como um ponto negativo, pois
segundo Antônio Augusto Arantes, “é justamente manipulando
repertório de fragmentos de ‘coisas populares’ que, em muitas
sociedades, inclusive a nossa, expressa-se e reafirma-se
simbolicamente a identidade da nação como um todo ou, quando muito,
das regiões, encobrindo a diversidade e as desigualdades sociais
efetivamente existentes no seu interior”.9
Certamente, esses
fragmentos compõem a cultura de um povo, uma vez que cada grupo
social se divide pela crença, ideologia e interesses. Isso porque as
manifestações populares herdadas de gerações passadas sofrem
influência das novas gerações que as interpreta, representa e
recria os objetos, as concepções e práticas dando-lhes uma nova
roupagem, o que constitui a expressão social de um determinado
grupo.
Notas do artigo
1
DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à
antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. p. 48.
2
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Folclore. São Paulo:
Editora Brasiliense, 1982. p. 28-30.
3
OLIVA, Terezinha Alves de e SANTOS, Lenalda Andrade. Para
Conhecer a História de Sergipe. Aracaju: Opção Gráfica,
1998. p.98-99.
4
SILVA, Clodomir de Souza e. Álbum de Sergipe: 1820-1920.
Aracaju, 24/10/1920. (Ementa).
5
COMISSÃO SERGIPANA DE FOLCLORE. Revista Sergipana de Folclore.
N. 1, ano 1. Aracaju, Agosto de 1976.
6
NASCIMENTO, Bráulio do. Os encontros culturais de Laranjeiras.In:
Encontro Cultural de Laranjeiras 20 anos. Governo do Estado
de Sergipe: Secretaria Especial da Cultura, 1994. p. 13-15.
7
NASCIMENTO, Bráulio do. Os encontros culturais de Laranjeiras. In:
Encontro Cultural de Laranjeiras 20 anos. Governo do Estado
de Sergipe: Secretaria Especial da Cultura, 1994. p. 11-13.
8
DANTAS, Beatriz Góis. Cadernos de Folclore nº 14: Chegança.
Rio de Janeiro: s/ed., 1985. p. 11.
9
ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura. São Paulo:
Editora Brasiliense, 1981. p. 15.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Escritores culturais de Itabaiana
José
Diniz Barreto
Etelvina
Amália de Siqueira
Félix
Barreto de Vasconcelos
Pe.
Vicente Francisco de Jesus
José
Sebrão de Carvalho (Sebrão, Sobrinho)
Maria
Thétis Nunes
Alberto
Carvalho
Antônio
Oliveira
Robério
Barreto Santos
Antonio
Francisco de Jesus
José
Augusto Machado
José
Crispim de Souza
Emerson
Vasconcelos
José
Rodrigues Santos
Antonio
Carlos dos Santos
Vladimir
Souza Carvalho
Francisco
Antonio de Carvalho Lima Júnior
José
Gumercindo dos Santos
Antonio
Diniz Barreto
Reisado do Bom Jardim
Nome:
Reisado
do Bom Jardim
Data
de fundação: Ano
de 1991
Endereço:
Povoado
Bom Jardim
Cidade:
Itabaiana
- Sergipe
Cep:
49500-000
Celular:
9979-4218
Responsável
pelo grupo:
Maria
Rosa de Santana
Data
de nascimento: 18/02/1937
Endereço:
Povoado
Bom Jardim
Cidade:
Itabaiana
- Sergipe
Cep:
49500-000
Celular:
9979-4218
7.2
Histórico
O
Reisado do “Bom Jardim” povoado de Itabaiana uma manifestação
popular e folclórica da região.
Atualmente,
liderada com muito esforço pela D. Maria Rosa Santana, 72 anos. Ela
não mede esforços para animar e manter viva essa tradição de
origem ibérica que se instalou em Sergipe há séculos atrás.
O
Reisado é composto de figurantes com vestes coloridas acompanhadas
de tocadores.
O
Reisado do Bom Jardim no momento se encontra desativado por falta de
incentivo e recursos. Diante desse quadro, o Reisado morre para a
comunidade, mas não para D. Rosa que com toda dedicação ainda
guarda os retalhos que sobraram e registros.
7.3
Questionário Sócio-Cultural
Amostragem:
22 pessoas
Cor
de pele:
100%
Pardo (22) Pessoas
Grau
de escolaridade:
32%
Analfabeto (07) Pessoas
46%
Ensino Básico incompleto (10) Pessoas
18%
Ensino Médio incompleto (04) Pessoas
5%
Ensino médio completo (01) Pessoa
Renda
pessoal:
59%
Não tem renda (13) Pessoas
9%
Inferior a 1(um) Salário Mínimo (02) Pessoas
28%
1(um) Salário Mínimo (06) Pessoas
5%
Entre 2(dois) e 4(quatro) Salários (01) Pessoa
Qual
o motivo que o levou a participar deste grupo folclórico?
100%
responderam (22) Pessoas
Forma
de promover cultura para o município.
Forma
de criar lazer numa comunidade.
Quais
as contribuições que o grupo folclórico promove como benefícios
para o Estado ou Município?
100%
responderam (22) Pessoas
Promove
a auto-estima e o sentimento de cidadania dos membros e dos
habitantes do município.
Dinamiza
os espaços culturais dos municípios.
Promove
o nome da cidade em eventos municipais, estaduais e até mesmo
nacionais.
Desenvolve
ações que geram documentações e registros nas comunidades que
atuam.
Atualmente
a sustentabilidade do grupo dispõe de quais recursos?
100%
responderam (22) Pessoas
Recursos
públicos municipais
Quais
as atuações do grupo?
100%
responderam (22) Pessoas
Todos
os eventos culturais.
Atua
de forma ativa em eventos municipais, estaduais e nacionais.
Você
participa a quanto tempo do grupo?
50%
Inferior a 1 ano (11) Pessoas
23%
1 a 5 anos (05) Pessoas
9
% 5 a 10 anos (02) Pessoas
9%
10 a 15 anos (02) Pessoas
9%
15 a 20 anos (02) Pessoas
Idade
41%
De 08 a 15 anos (09) Pessoas
9%
De 20 a 30 anos (02) Pessoas
9%
De 40 a 50 anos (02) Pessoas
5%
De 50 a 60 anos (01)
Pessoa
23%
De 60 a 70 anos (05) Pessoas
9%
De 70 a 80 anos (02) Pessoas
5%
De 80 a 90 anos (01) pessoa
Conclusão:
Com
base nos dados colhidos, o grupo folclórico “Reisado Bom Jardim”
é composto por membros pardos, com ensino básico incompleto, não
possuem renda e participam do grupo no período de tempo de um ano.
Esse
grupo folclórico divulga o nome da cidade nos eventos municipais,
estaduais e inclusive nacionais, atuando ativamente nos eventos,
proporcionando a auto-estima e o sentimento de cidadania dos membros
e dos habitantes dos municípios.
A
sustentabilidade do grupo vem de recursos públicos municipais.
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